segunda-feira, 2 de abril de 2012

Para que a vida não seja banal

 

Texto de: Ricardo Gondim

Depois de reler os meus últimos textos, aquiesço: tenho sido repetitivo. Volto ao mesmo passado e reitero as mesmas contrições. Recorro a remorsos sovados: não saber separar o urgente do importante; calar quando o silêncio era vantajoso; confundir ingenuidade com ímpeto. Talvez eu precise dessa recorrência para purgar o coração. Não sei.

Olho para trás e vejo como a minha reflexão, rica em carisma, era pobre de conteúdo. Abdiquei de pensar por mim para empolgar auditórios. Transformei-me em caixa de ressonância de um sub grupo cultural – e religioso –  que adorava o êxtase. Eu falei o que o grupo consentia, e gostava de ouvir.

Ainda não me considero velho, mas sei que estou a poucos quilômetros da linha de chegada. Sinto a hora de encarar perguntas difíceis. Não resta motivo para evitar questionamentos que possam me indispor com a congregação.

Absorto em construir um mito, gastei muita energia em defendê-lo. Tornei-me escravo do lugar comum; metralhei clichês a ermo, sem parar e sem refletir na pertinência deles. Despejei chavões religiosos tanto para Deus como para as pessoas. Minhas preces eram “sem noção”.

Certa vez, fiz declarações tão categóricas sobre “os milagres de Deus” que uma pessoa me questionou. “Ricardo, você não se importa em conectar seu discurso com a mãe da menina com paralisia cerebral que veio à conferência?”. Tenho vergonha de como me safei: “Meu dever é falar sobre as verdades de Deus e o dever d’Ele é agir. Se a criança saiu daqui sem receber o milagre, que a mãe brigue com Deus, não comigo”.

Essa postura fria separou a minha teoria da vida. Eu me blindei do sofrimento que meu discurso produzia. Enquanto me distanciei dos dramas pessoais inflei o ego. Como é fácil inebriar-se com a exuberância das próprias palavras, e voltar as costas ao sofrimento humano. Narcotizei-me com a poderosa anfetamina da retórica descompromissada.

É possível imaginar o tamanho do desengano. Eu não era nada do que fantasiava. Anos depois, muita gente não só rejeitou minha fala como me atacou. Sofri, angustiado.  Eu não conseguia entender como as pessoas se atreviam desprezar o que eu considerava “A Revelação” (assim, maiúscula). Hoje, me obrigo a fugir do ufanismo que os grandes discursos provocam. Não pretendo perpetuar a Síndrome de Apolo – acreditando que toda palavra seja um oráculo. Abro mão de possuir uma eloquência capaz de converter o mundo.

Não tenho mais como me ver arauto sagrado. Os mistérios eternos escapam da minha alça de mira. Escrevo, falo, ensino apenas como vocação. Se conseguir oferecer meus débeis arrazoamentos, ficarei feliz. Foi difícil, mas aprendi: não é possível ser uma unanimidade.

Assim, encaro o desafio fugir do messianismo. Quimeras de onipotência só me feriram. Me colocaram diante de uma dura realidade: toda capacidade tem limites estreitos; mais estreitos do que jamais admiti. Por anos também pensei encarnar Atlas; eu queria carregar o mundo nas costas. Violei a termodinâmica e trabalhei como um moto-contínuo.

Aprendo a dizer não. Celebro o sossego. Desculpo o ócio. Fecho os olhos para os acenos do sucesso. Desejar glória perdeu sentindo. O brilho da fama, que azeitou o meu ativismo, apagou-se. Confesso: eu amei o badalo das multidões. Mas desejo desprezar isso tudo: holofotes, confetes, gabação. Entediado com estrelismo, privilegio ambientes intimistas. Elejo pequenos grupos para um bate papo descontraído.

As decepções foram tantas que devo resguardar-me do cinismo. Presenciei – e até compactuei – com a instrumentalização de pessoas para viabilizar projetos institucionais. Agora, se não viver com integridade, me condeno à senvergonhice.

Eu dava de ombros para os gigantescos campos de exilados das Nações Unidas – sabia explicar direitinho os motivos para Deus derramar sua ira sobre eles. Minha religião se preocupava com trivialidades. Alheio à malária, ao cólera, ao tráfico humano, ao HIV, acreditei e vociferei dogmas redentores. Chego à idade de transformar a caminhada religiosa em espiritualidade compromissada.

Quero arraigar a fé, trazer a devoção para o dia-a-dia, catalisar iniciativas que respondam ao sofrimento do miserável. Salvo a alma se responder à graça, inquietar os confortáveis, confortar os destituídos, provocar engajamento e oferecer o ombro aos indignados com a injustiça. Não sei quantos anos ainda tenho, mas, insisto, eles não serão banais.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Pai Nosso (de trás pra frente)


Um texto de: Rogerio Brandão Ferreira

Sinceramente, nossos desejos, nossa linha de prioridades e raciocínio, estão completamente invertidos na oração do Pai Nosso.
Para sermos 100% coerentes deveríamos orar mais ou menos assim:
Pai nosso, teu é o reino, o poder e a glória para sempre (você é o cara e é nosso pai)
(então) livra-nos do mal (que avacalha com nosso dia a dia)
não nos deixes cair em tentação (visto que grande parte desse mal somos nós mesmos que causamos)
perdoe as nossas dívidas (uma vez que caímos mesmo em algumas dessas tentações)
assim como nós perdoamos aos nossos devedores (pelo menos como aqueles débitos podres, sem esperança, que resolvemos apagar da memória)
o pão nosso de cada dia nos dai hoje (pois, livres do mal, das tentações, consciência tranquila, sem rancor de ninguém, dá até mais vontade de comer)
seja feita a tua vontade assim na terra como nos céus (ok, você também tem lá seus interesses… cumpra-os aqui também)
Vem a nós o teu reino (sim, reine aqui também e não só laaaá nos céus)
Santificado seja o teu nome (afinal, você é o cara, que seu nome seja preservado com respeito)
e estás nos céus (de certa maneira; ainda distante dessa doidera aqui da terra)
Amém!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ele é, não precisa ser!

                             


Reflexão de: Felipe d'Oliveira

No mundo que vivemos hoje em dia a maioria das pessoas, que são protestantes, imaginam Deus como uma caixa de troca de valores. Algumas pessoas chegam a fazer votos que são irrelevantes só para conquistar algo ou alguém. A quem da verdade nós, protestantes, não precisamos de nada, muita das vezes mal observamos o Deus a quem servimos.Na prática da fé nos últimos dias é comum ver sacerdotes fazendo propostas repugnantes ao povo e infelizmente esses seguidores aceitam essas propostas, muita das vezes financeira, por não conhecer o Deus que Eles servem. A ignorância bíblica dentro das igrejas nos dias de hoje é totalmente desprezada em alguns arraiais.
Conhecer Deus, ou tentar, como Ele é chega a ser um desafio grande aos seguidores desse protestantismo que vemos sendo apregoado nos templos hoje em dia.
Este desafio tende ser vencido por nós, a busca de conhecer a Deus liberta os nossos olhos do que Ele pode oferecer. Conhecer Deus está acima de se estudar Deus, pois Deus não se estuda se conhece e se vivencia. Ao conhecer Deus uma serie de fatores se desabrocha a vida do cristão, o real conhecimento do pecado descobrindo que o que agrada o mundo Desagrada a Deus, por isso foi escrito "escondi a tua palavra no meu coração, para não pecar contra Ti", descobrindo que a Graça de Deus é fundamental pois ela da forças para superar todo mal e por fim descobrindo que Deus é o único caminho certo a ser seguido como disse um dos filhos de Coré no Salmo 119 "Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos" sendo assim a luz que conduz ao lugar certo.
Quando se olha para Deus como um Pai de amor é irrelevante pensar em um Pai abençoador, pois tudo podemos seja passar por tempos de bonança ou passar, pelo que Jesus afirmou que iriamos passar, tribulações. Pois quando vemos quem realmente Deus é pouco ligamos para o que Ele pode fazer.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Acredito em Deus...

Pensamentos de: Felipe d'Oliveira

Acredito em um Deus de paz, não de guerra.
Acredito em um Deus de amor, não de ódio contra meus inimigos.
Acredito em um Deus que não faz questão a minha conta bancaria mais sim ao meu carácter.
Acredito em um Deus que é a figura de um Pai, não a de um carrasco cuja é apregoado nas igrejas pentecostais.
Acredito em um Deus que prioriza minha ida pro céu do que as minhas conquistas na terra.
Por fim, acredito em um Deus que ama o ser humano.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Súplica reeditada


Reflexão de: Ricardo Gondim

Pai nosso e dos exilados, dos deprimidos, das meninas vendidas à prostituição, dos curdos, das aeromoças, dos ianomâmis, dos carvoeiros, das juízas, dos mineradores chineses, dos médicos legistas, dos cabelereiros, das noviças, dos poetas, das atrizes, dos teólogos, das massagistas, dos meus filhos e netos, dos ateus, das motoristas de ônibus, dos carcereiros.

Que estás no céu, na terra, no vácuo, no hades, no patíbulo, na floresta, na sala de hemodiálise, no cabaré, na UTI, no acampamento dos sem-terra, na catedral, na sala de tortura, no asilo de velhos, no botequim, no matadouro, no quartel, na ambulância, no escafandro, no aeroporto, no palco, na piscina, no hospício.

Santificados sejam o teu nome, a ideia que fazemos de ti, o livro que escrevemos sobre ti, a música que cantamos sobre ti, o planos de paz que organizamos pensando em ti, a mulher que tocamos por seguirmos a ti; e o futuro que sonhamos por ousarmos te chamar de Pai.

Venha o teu reino. Sentimos a urgência não de ir até aí, mas de demonstrar aqui neste planeta diminuto a aspiração que está no além. Queremos nos enraizar neste chão para fazer algo novo, algo que se sobreponha ao que já se construiu na história. Acontece que somos inadequados, claudicantes e egoístas. Incentiva-nos a querer mostrar lampejos do que seria a vida se vivêssemos, minimamente, teus valores. Faze-nos subversores do inexorável, sabotadores das sinas, revolucionários do amanhã. Precisamos da esperança que desvela outra realidade, outro mundo, outra forma de viver.

Seja feita a tua vontade na terra como ela é feita no céu. Desde a criação decidiste que homens e mulheres tomariam os rumos da história. Tu assinalaste a eles a responsabilidade de disseminar bondade e não crueldade, equidade e não injustiça, criatividade e não opressão, liberdade e não escravidão. Anima-nos para que possamos incubar vida, parir oportunidade, perenizar o bem e assim estreitar esse abismo que nos separa de tua morada.

O pão nosso de cada dia, nos dai hoje, mas que este pão nos alimente física, emocional e espiritualmente. Não nos deixe satisfeitos com a ração que nos apequena em nossa humanidade. Temos fome de sentido, carecemos de afetos, ansiamos por beleza, desejamos transcendência. Dá-nos gula de palavras; e que as palavras, transformadas em versos, nos saciem de eternidade. E que as parábolas temperadas de metáforas se transformem no banquete que nos salva no dever inclemente de sobreviver, só sobreviver.

Perdoa a nossas dívidas bem como as ofensas grosseiras de quem ataca a adolescente, o homossexual, o pobre, o negro, o cigano, o gari, o porteiro, a babá, o garçom, o pedreiro, o trovador, a enfermeira, a maria-ninguém. Somos cruéis uns com os outros, lentos em reconhecer a dignidade alheia. Mordazes, desaprendemos a respeitar dores. Inclementes, desonramos sonhos. Insensíveis, não paramos para ouvir queixas. O perdão nos livra dos grilhões que nos aferramos com o endurecimento. Precisamos de misericórdia, antídoto que nos salva do veneno que tentamos inocular nos outros. Falta-nos a percepção que revidar só expõe a soberba de nos achar melhores e mais privilegiados que os demais.

Assim como perdoamos aos nossos devedores, não nos deixa aspirar de ti nada além do que fazemos pelo próximo. Não te sintas obrigado a nos absolver mais do que absolvemos, a nos compreender mais do que compreendemos, a nos proteger mais do que protegemos. A régua que medirmos deve ser a mesma que esperamos ser aferidos. Que nossa balança não se vicie. E que nós nos identifiquemos no próximo, única forma de entendê-lo e amá-lo.

Não nos deixe cair em tentação. Livra-nos do mal, que é a desgraça de cobiçar poder, honra e glória. Lembra-nos: cobiçar poder transforma anjo em diabo e homens em demônios. Que não nos iludamos com caminhos largos, com brilho intenso ou com segurança de riqueza sem fim. Desperta-nos para o caminho do Nazareno que desdenhou de se valer do divino em sua árdua trilha humana. Sem apelar para poderes sobrenaturais, ele se fez gente. Foi grande porque não fugiu da morte estúpida e banal que os opressores lhe impuseram. Dá-nos a serenidade de não nos seduzir pela mentira de que existe outra senda senão a que ele escolheu.

Amém.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Natal dos Galhos Secos


Reflexão de: Ricardo Gondim

A estrada se alongava por infinitos quilômetros. Enquanto eu caminhava, braços secos, unhas compridas, tentáculos enormes tentavam me arrastar para dentro de uma ribanceira cinzenta. A caatinga de dezembro, que se fazia de morta para sobreviver à fúria do sol nordestino, ressuscitara só para me atormentar. Meu coração batia lento, num ritmo espaçado. Mas a cada batida, fazia estremecer meu corpo inteiro. Um medo se alastrou dentro de mim e eu suava nas palmas das mãos.

Hoje, passados quarenta anos, ainda caminho por aquela mesma estrada tortuosa e sinistra. Todos os anos, quatro dias antes do Natal, aquele dia revive em minha alma e ainda suo nas mãos.

Eu fora incumbido de levar uma má notícia ao meu tio que morava no sítio denominado de Amargoso. Mamãe, grávida de gêmeos, acabara de dar à luz. Nasceram um menino e uma menina. A menina, chamada Gelsa, não viveria. Sua existência se resumiria a apenas dois longos dias de sofrimento.

Mamãe enfrentara uma gravidez conturbada, devido a prisão de meu pai. Ainda recordo o beijo matinal que ela me dava durante o período em que o mantinham incomunicável. Era um beijo seco. A espera de um telefonema que traria a voz do seu homem, endurecia seus lábios. Toda gestação passou-se nessa agonia, que só acabou quando um jipe da aeronáutica trouxe um documento permitindo nossas visitas. Era mamãe quem conduzia os cinco filhos pela mão por alguns quilômetros até a porta do presídio. Mas, aquela antiga agonia se repetia nos procedimentos burocráticos que nos consumiam por horas; tardavam para não nos deixarem abraçar papai.

Assim, o padecer da Glícia se fez carne incompleta. Minha irmãzinha nasceu com o sistema digestivo imperfeito. Sem poder se alimentar, morreria de fome em dois dias.

Orei minhas primeiras preces por aquela estrada amedrontadora. Com minha sinceridade de criança, pedi que Deus curasse a Gelsinha e que Ele não permitisse torturarem minha mãe ainda mais. Roguei-lhe que preservasse meu pai de chorar na frente de seus algozes. Porém, Deus preferiu permanecer em silêncio. No dia 22 de dezembro, meu pai chorou e a tortura de minha mãe se tornou insuportável.

Soluços paternos ressoarão na noite deste Natal e muitas lágrimas maternais se desperdiçarão sem que haja alguém para enxugá-las. Deus parecerá distante e mudo em seu silêncio absoluto. Por isso, sinto que minha vocação é continuar viajando pelas mesmas estradas amedrontadoras de minha infância; não para levar notícias ruins, mas ser a boca de Deus, expressando novas alvissareiras. Desejo anunciar que se Deus habita no silêncio, ele não é indiferente. Quero ser seus braços para sustentar os frágeis e a resposta da prece das mães tristes. Quero que todos saibam que o Deus ausente se faz presente através de seus filhos.

Ele procura por quem se disponha encarnar sua presença entre mulheres e homens. Por isso, convido-lhe a me acompanhar por aquela estrada seca. Neste Natal, exorcizemos o medo; sejamos o consolo e a felicidade de alguém.

domingo, 18 de dezembro de 2011

A arte de ser feliz


De: Cecília Meireles

Houve um tempo em que a minha
janela se abria para um chalé.

Na porta do chalé brilhava
um grande ovo de louça azul.
Neste ovo costumava pousar
um pombo branco.

Ora, nos dias límpidos,
quando o céu ficava da mesma
cor do ovo de louça,
o pombo parecia pousado no ar.

Eu era criança,
achava essa ilusão maravilhosa e
sentia-me completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha
janela dava para um canal.

No canal oscilava um barco.
Um barco carregado de flores.
Para onde iam aquelas flores?
Quem as comprava?

Em que jarra… em que sala,
diante de quem brilhavam,
na sua breve experiência?
E que mãos as tinham criado?
E que pessoas iam sorrir de
alegres ao recebê-las?

Eu não era mais criança,
porém minha alma ficava
completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha
janela se abria para um terreiro,
onde uma vasta mangueira
alargava sua copa redonda.

À sombra da árvore, numa esteira,
passava quase o dia todo sentada
uma mulher, cercada de crianças.
E contava histórias.

Eu não podia ouvir, da altura da janela,
e mesmo que a ouvisse, não entenderia,
porque isso foi muito longe,
num idioma difícil.

Mas as crianças tinham tal expressão
no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

Houve um tempo em que na minha janela havia um
pequeno jardim seco.

Era um tempo de estiagem,
de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.

Mas todas as manhãs vinha um pobre
homem com um balde e em silêncio,
ia atirando com a mão umas gotas
de água sobre as plantas.

Não era uma rega:
era uma espécie de aspersão ritual,
para que o jardim não morresse.

E eu olhava para as plantas,
para o homem, para as gotas de
água que caíam de seus dedos magros
e meu coração ficava
completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante
de cada janela, uns dizem que essas
coisas não existem, outros que só
existem diante das minhas janelas
e outros finalmente, que é preciso
aprender a olhar, para poder vê-las assim.