segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Natal dos Galhos Secos


Reflexão de: Ricardo Gondim

A estrada se alongava por infinitos quilômetros. Enquanto eu caminhava, braços secos, unhas compridas, tentáculos enormes tentavam me arrastar para dentro de uma ribanceira cinzenta. A caatinga de dezembro, que se fazia de morta para sobreviver à fúria do sol nordestino, ressuscitara só para me atormentar. Meu coração batia lento, num ritmo espaçado. Mas a cada batida, fazia estremecer meu corpo inteiro. Um medo se alastrou dentro de mim e eu suava nas palmas das mãos.

Hoje, passados quarenta anos, ainda caminho por aquela mesma estrada tortuosa e sinistra. Todos os anos, quatro dias antes do Natal, aquele dia revive em minha alma e ainda suo nas mãos.

Eu fora incumbido de levar uma má notícia ao meu tio que morava no sítio denominado de Amargoso. Mamãe, grávida de gêmeos, acabara de dar à luz. Nasceram um menino e uma menina. A menina, chamada Gelsa, não viveria. Sua existência se resumiria a apenas dois longos dias de sofrimento.

Mamãe enfrentara uma gravidez conturbada, devido a prisão de meu pai. Ainda recordo o beijo matinal que ela me dava durante o período em que o mantinham incomunicável. Era um beijo seco. A espera de um telefonema que traria a voz do seu homem, endurecia seus lábios. Toda gestação passou-se nessa agonia, que só acabou quando um jipe da aeronáutica trouxe um documento permitindo nossas visitas. Era mamãe quem conduzia os cinco filhos pela mão por alguns quilômetros até a porta do presídio. Mas, aquela antiga agonia se repetia nos procedimentos burocráticos que nos consumiam por horas; tardavam para não nos deixarem abraçar papai.

Assim, o padecer da Glícia se fez carne incompleta. Minha irmãzinha nasceu com o sistema digestivo imperfeito. Sem poder se alimentar, morreria de fome em dois dias.

Orei minhas primeiras preces por aquela estrada amedrontadora. Com minha sinceridade de criança, pedi que Deus curasse a Gelsinha e que Ele não permitisse torturarem minha mãe ainda mais. Roguei-lhe que preservasse meu pai de chorar na frente de seus algozes. Porém, Deus preferiu permanecer em silêncio. No dia 22 de dezembro, meu pai chorou e a tortura de minha mãe se tornou insuportável.

Soluços paternos ressoarão na noite deste Natal e muitas lágrimas maternais se desperdiçarão sem que haja alguém para enxugá-las. Deus parecerá distante e mudo em seu silêncio absoluto. Por isso, sinto que minha vocação é continuar viajando pelas mesmas estradas amedrontadoras de minha infância; não para levar notícias ruins, mas ser a boca de Deus, expressando novas alvissareiras. Desejo anunciar que se Deus habita no silêncio, ele não é indiferente. Quero ser seus braços para sustentar os frágeis e a resposta da prece das mães tristes. Quero que todos saibam que o Deus ausente se faz presente através de seus filhos.

Ele procura por quem se disponha encarnar sua presença entre mulheres e homens. Por isso, convido-lhe a me acompanhar por aquela estrada seca. Neste Natal, exorcizemos o medo; sejamos o consolo e a felicidade de alguém.

domingo, 18 de dezembro de 2011

A arte de ser feliz


De: Cecília Meireles

Houve um tempo em que a minha
janela se abria para um chalé.

Na porta do chalé brilhava
um grande ovo de louça azul.
Neste ovo costumava pousar
um pombo branco.

Ora, nos dias límpidos,
quando o céu ficava da mesma
cor do ovo de louça,
o pombo parecia pousado no ar.

Eu era criança,
achava essa ilusão maravilhosa e
sentia-me completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha
janela dava para um canal.

No canal oscilava um barco.
Um barco carregado de flores.
Para onde iam aquelas flores?
Quem as comprava?

Em que jarra… em que sala,
diante de quem brilhavam,
na sua breve experiência?
E que mãos as tinham criado?
E que pessoas iam sorrir de
alegres ao recebê-las?

Eu não era mais criança,
porém minha alma ficava
completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha
janela se abria para um terreiro,
onde uma vasta mangueira
alargava sua copa redonda.

À sombra da árvore, numa esteira,
passava quase o dia todo sentada
uma mulher, cercada de crianças.
E contava histórias.

Eu não podia ouvir, da altura da janela,
e mesmo que a ouvisse, não entenderia,
porque isso foi muito longe,
num idioma difícil.

Mas as crianças tinham tal expressão
no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

Houve um tempo em que na minha janela havia um
pequeno jardim seco.

Era um tempo de estiagem,
de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.

Mas todas as manhãs vinha um pobre
homem com um balde e em silêncio,
ia atirando com a mão umas gotas
de água sobre as plantas.

Não era uma rega:
era uma espécie de aspersão ritual,
para que o jardim não morresse.

E eu olhava para as plantas,
para o homem, para as gotas de
água que caíam de seus dedos magros
e meu coração ficava
completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante
de cada janela, uns dizem que essas
coisas não existem, outros que só
existem diante das minhas janelas
e outros finalmente, que é preciso
aprender a olhar, para poder vê-las assim.

sábado, 5 de novembro de 2011

O filho, o Pai e o filho (Parte 1)


Reflexão de: Felipe d'Oliveira

Vou tratar nesta reflexão dividida em 3 Partes sobre um tema pouco averiguado no texto, é importante que deixemos de olhar para o texto, mais sim que olhemos para o que há dentro das palavras.
Lucas 15:11-32
Reflitamos então:

O filho que saiu de casa

Jesus aborda nesta parábola 3 pessoas e varias situações mais nesta primeira parte olhemos para o filho que saiu de casa, o filho pródigo.
Era um rapaz que provavelmente teria um futuro brilhante ao lado do Pai, mais que tinha outro olhar para o mundo que lhe rodeava, talvez ele estava cego de ver que na casa do Pai ele tinha tudo que lhe era necessário para viver. A verdade é que ele não quis mais ficar em casa, e teve a coragem o suficiente para chegar no pai e dizer que não queria mais ficar na casa dele e continuar vivendo a rotina da casa e ter de viver todos os seus dias naquele lugar que tinha o sustento necessário para ele viver. Ele então resolve matar o pai em sua memória, lembrando que no contexto histórico da época o filho só herda a herança quando o pai falece, pede ele a sua parte da herança para poder viver a vida dele (Jesus ao falar do filho pedindo a herança do pai ainda vivo, aguçava aos seus ouvintes principalmente os judeus que de maneira alguma aceitaria este tipo de pedido de um filho). Jesus nesta parábola exorta em 3ª pessoa Deus como Pai.
O Pai amoroso e sem algum contratem então deixa o filho ir com a parte que lhe cabia da herança, o filho sai da presença (casa) do pai e vai então viver uma vida fora, uma vida de alegrias passageira de amigos irreais enfim uma vida mentirosa.
Que é assim a nossa vida quando estamos fora da casa do pai, uma vida insegura, sem direção, com pessoas que só nos levam ao fim do poço e que totaliza nossas conquistas em nada.
Longe da casa do pai este filho perdeu tudo não sobrando nada que havia levado consigo da casa do pai, houve fome naquela terra então ele começou a passar necessidades. Então ele pede a um cidadão daquela terra para se podia trabalhar para ele em troca de alimento, este cidadão enviou ele para apascentar porcos (algo que para o judeus, que ouviam Jesus naquele instante, era inaceitável pois um judeu não como porco e muito menos apascenta eles). Este filho então passou a comer a bolota que os porcos deixavam.
Mais então no versículo 17 o filho levanta a cabeça, toma nota da situação deplorável que ele chegou , em uma das partes mais lindas da Bíblia que é da humildade do ser humano em reconhecer que está errado, "Caindo em Si" - vendo a realidade - ele observa que estava errado em todas a suas atitudes e visualiza que na casa do pai até os empregados comiam melhor do que ele, e em um ato de humildade resolve voltar a casa do pai para pedir que o pai o aceita-se como um de seus empregados.
Este filho só conseguiu enxergar que estava errado, quando ele aceitou que estava errado em ter saído da casa do pai, caso contrario ele não teria visto isso, só admitindo que esta errado é que é possível "cair em si".
Este filho então volta a casa do pai com a proposta de ser um servo, então o pai o recebe o veste e festeja a volta do filho que teve a capacidade de reconhecer que estava errado ao sair do lugar de abrigo, paz e tranquilidade.

(Parte 1)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Solitude


Reflexão de: Ricardo Gondim

Em um mundo de tantos príncipes, ouço um convite para ficar só. Quero distanciar-me um pouco do frenesi das ideias. Necessito sair do ruge-ruge, espairecer. Tornou-se uma urgência preservar o pouco de sanidade que me resta depois de decepções, safanões existenciais, alfinetadas espirituais. Quero sorver o silêncio como bálsamo, deixar-me conduzir pela vastidão, embrenhar-me no vazio. Ouvir a partir das ausências pode ser terapêutico.
Minha solitude pertence às estepes. Careço da grandeza que só as colinas oferecem. Se eu me sentar na pedra que se inclina no precipício, desacompanhado dos tumultos, ouvirei, no sicio da aragem, o essencial. A quietude me remenda. Se fui retalhado na arena, em algum esconderijo, sei que me costuro. Posso fazer de algum lugar remoto o atelier do supremo artesão.
Os passos que dou para fora dos povoados são esforços de não deixar-me institucionalizar. Acumulei patrões pelos anos. Resignado, desaprendi a dizer não. Abandonei-me ao gerenciamento de especialistas; todos especialistas em mandar na vida alheia. Chegou a hora de preservar um pouco do selvagem que carrego desde a minha terra natal. Já fui menino do calção, descalço. Eu não me intimidava com as cercas. Quando queria chupar manga, nadar em charcos ou cavalgar em pangarés, pulava arames farpados. Fui atrevido. Eu não carregava relógio no pulso. Agendas, normas, demandas, roteiros. Assimilei cabrestos e me domestiquei.
Devidamente adequado às exigências de gente que mal conheci, por anos evitei a liberdade do descampado. Passei a ter medo de abrir picada, de aventurar-me por trilhas nunca exploradas. Acostumei-me à sendas bem pavimentadas. Perdi o viço. De repente, anseio por algum lugar remoto, onde não vou esbarrar em ninguém. Estou certo: no anonimato, recobro antigas ousadias.
Só na amplidão do nada, aprendo a não gastar o resto de minha história a procurar aportar no impossível ancoradouro do contento. Recuso-me continuar; tenho que reconciliar-me com inadequações sem precisar responder a ninguém sobre o porquê dos devaneios que lotam a minha alma de poesia. Quando me percebo só, perco o medo de questionar. Desacompanhado, não assusto, não frustro, não decepciono.
Para que homogeneizar-me? Ficar igual seria despersonalizar-me. O fardo de cumprir o padrão imposto seria um suicídio em vida. Devo retrair-me. Em algum esconderijo, ganho alguma chance de lidar com os fragmentos mal encaixados de sentimentos, ideias e comportamentos. Esses cacos, por outros desprezíveis, fazem parte de minha vida.
Sinto falta de um claustro. Edificarei algum monastério – se não conseguir espaço, o erguerei no tempo. Cheguei à idade em que não tenho mais pernas para correr de mim mesmo. Na cela desse mosteiro imaginável, serei iconoclasta. As paredes pintarei de cinza, as janelas não terão qualquer vitral. Despojado de tudo o que possa roubar a atenção, enfrento demônios, converso com anjos e desmascaro fantasmas.
Nas pegadas do Nazareno, sinto o apelo de perder-me para os aplausos, de encolher-me diante do fascínio da glória. Não sei se consigo, mas estou consciente que é nesta estrada onde se aprende: o mal tem sede de brilho e a verdadeira vida se esconde na simplicidade.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Naufrágio


Mensagens do: Pr Arcélio Luis

Conservando a fé, e a boa consciência, porquanto alguns rejeitando-a fizeram naufrágio na fé.

(Primeira carta de Paulo à Timóteo, capítulo 1 – versículo 19)

O ano era 1912.

A conquista era sem precedentes!

Tratava-se da maior conquista humana em navegação e acabou como a maior tragédia náutica de todos os tempos!

O Titanic era considerado tão seguro que não houve preocupação com botes salva vidas, pois se dizia que nada nem ninguém seria capaz de afundá-lo.

A superestimação foi fatal para aquela embarcação, repleta de milionários, do inicio do século passado. O problema é que num naufrágio estar na primeira classe não garante a sobrevivência.

A superestimação tornou fatal o desastre. A Bíblia sagrada, o Livro dos livros, o manual do Fabricando do homem, o Código da Eternidade, nos aconselha a não incorrermos no mesmo erro, dizendo: “Aquele que está em pé tome cuidado pra não cair.” (1 Coríntios 10.12).

O próprio Senhor Jesus advertiu seus discípulos dizendo para não somente orarem, mas também vigiarem a fim de não cair em tentação. Na própria oração que o Senhor ensinou, famosamente conhecida como a “Oração do Pai Nosso”, contem o mesmo ensino sobre o perigo da tentação.

O Experiente Apóstolo Paulo ao Escrever ao jovem pastor Timóteo adverte que esse naufrágio da fé vem pela perda da boa consciência, a qual nos mantém centrados, interiormente organizados, e pragmaticamente equilibrados.

A consciência é descrita em diversas ocasiões na Bíblia como algo muito importante para não naufragar na fé. Segundo o dicionário Aurélio, Consciência é s.f. “Conhecimento, noção do que se passa em nós, percepção mais ou menos claras dos fenômenos que nos informam a respeito de nossa própria existência. Sentimento de dever, moralidade.” A consciência é como uma voz interna que nos defende ou nos condena, como se tivéssemos um tribunal infalível dentro de nós mesmos, independente de sermos ou não cristãos. Isto pode ser encontrado escrito com essa clareza em Romanos 2.15.

Segundo a Palavra de Deus para não fazer naufrágio na fé a consciência precisa ser mantida limpa e pura (1 Timóteo 3.9), pelo esforço consciente. Paulo, apostolo, disse: “Por isso, também me esforço por ter sempre consciência pura diante de Deus e dos homens.” (Atos 24.16). Além do esforço consciente existe uma ação do Espírito Santo direta na consciência para ajudar a impedir o naufrágio da fé, mas mesmo essa ação do Espírito Santo passa pela permissão da pessoa humana. Ainda citando Paulo, desta vez escrevendo aos romanos: “Digo a verdade em Cristo, não minto, dando comigo testemunho, no Espírito Santo, minha própria consciência”. (Romanos 9.1).

Segundo as mesmas palavras de Paulo a Timóteo desta vez no capitulo 4, verso 2, a consciência pode muitas vezes ser cauterizada, e, nesse caso, a boca fica cheia de mentiras. Já uma boa consciência gera uma fé sem hipocrisia, sem falsidade, e sem mentiras, conforme pode claramente ser lido na mesma epístola de 1 Timóteo 1.5. Segundo o autor de Hebreus, quem conserva uma boa consciência vai buscar viver de maneira digna e honrada (Hebreus 13.18). Já uma pessoa que se deixa levar pela descrença e pela impureza pode chegar a um ponto de ver a consciência ficar completamente corrompida, conforme lemos em Tito 1.15.

A difamação e a calúnia tem um poder corrosivo terrível, mas a consciência pura diante de Deus traz tranquilidade, mesmo quando somos severa e maliciosamente caluniados. Recentemente um membro do nosso ministério me contou que uma pessoa que havia nos abandonado fez certas calúnias, a maioria delas chega a ser engraçada, pela contradição nelas contidas. Outra pessoa me contou de um programa de rádio, do tipo “pastelão”, onde somente pessoas “baixíssimas” participam, que tal radialista me criticava inventando coisas absurdas (eu não assisto por dificuldade de ouvir gente desse nível), mas quando soube permaneci em paz, pelo simples fato de ter boa consciência para com Deus. “Fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo.” (1 Pedro 3.1).

Não devemos fazer ou deixar de fazer as coisas por causa dos críticos ou por causa da punição divina, mas sim por causa da consciência. Isso é o que difere o Antigo do Novo Testamento, é o que difere o tempo de criança para o tempo da maturidade, difere o que tem aio, para o que não precisa mais de aio por causa da consciência pura, a qual só fica totalmente pura pela Palavra de Deus. Ou seja, no Antigo Testamento a lei impressa em tábuas de pedras advertia o homem de fora para dentro, mas a lei impressa na consciência pelo Espírito Santo nos adverte de dentro pra fora, e essa ultima advertência é extremamente mais eficaz, pois temos seus mandamentos impressos no coração. Assim obedecemos às autoridades não somente por medo da punição, mas principalmente por causa da consciência, não por causa do guarda, mas por causa da placa. “Portanto é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente pelo castigo, mas também por causa da consciência.” (Romanos 13.5). E não nos esquecemos que tal purificação da consciência que impede o naufrágio vem somente da Palavra de Deus. “Aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura”. (Hebreus 10.22).

Shalom, Nele, em quem a consciência se mantém consciente no bote salva vidas da fé.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ebenezer (1 Samuel 7.12)


Ensino de: Pr. Giovanni Diodato Neto

“Até aqui” é um ponto que fala de três olhares para o tempo: o passado, o presente e o futuro. “Até aqui” olhando-se para o passado; (Êx 3.7-9) nos diz o quanto já caminhamos. As lutas que enfrentamos, as decepções que sofremos, as dores e angústias que sentimos, as vitórias que conquistamos. Mas “até aqui” não estivemos sozinhos. Não passamos por tudo isto desamparados. Ao contrário, Deus esteve presente em todas as circunstâncias. (Sl 91.15; Sl 23.4) Ele esteve conosco em nossas dores e angústias. “Até aqui” nos fala também do presente. Se no “agora” estamos enfrentando lutas e provações, as experiências do passado nos fazem lembrar de que Deus esteve nos ajudando. E esta lembrança nos traz esperança na ajuda divina. Devemos nos momentos difíceis do presente fazer como o profeta Jeremias (Lm 3.19-25) que diante de um quadro caótico, disse: “Quero trazer a memória o que me pode dar esperança.” Procuremos trazer a memória que nas lutas e provações passadas Deus esteve nos ajudando a superá-las. Creiamos que se Ele, lá atrás, não nos abandonou, é certo que não nos faltará no presente. Se você parece não ter muita coisa para comemorar neste momento, então, traga a sua memória as vezes que Deus o livrou, as vitórias que Ele ajudou a conquistar, as bênçãos que Ele gratuitamente lhe deu, a força quando esteve fraco, o consolo quando esteve triste, a saúde, a provisão. Estas lembranças lhe encherão de esperança. Serão um fator motivador para enfrentar o presente. “Até aqui” aponta para o futuro. (Hb 2.4)(Gl 3.11) Imagine uma caminhada onde você chega num ponto e diz: “Bem, chegamos até aqui!” E olha a sua frente e vê o longo caminho a ser percorrido. É assim a vida. Chegamos “até aqui”. Contudo, “aqui” não é o nosso lugar de descanso. Há um futuro para ser conquistado. Metas a serem atingidas. Sonhos a serem realizados. Projetos a serem empreendidos. Sim. “Até aqui” tem um olhar futuro. E sabe quem estará lá no futuro conosco? DEUS!!! Ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente. Por isso, não temamos o futuro desconhecido, nem fiquemos ansiosos por coisa alguma. Deus conhece o futuro. Se a nossa vida está em suas mãos, estaremos seguros. Ao pensar no futuro pense que Deus já está lá, aplainando o caminho, endireitando as veredas pelas quais você irá passar. E quando chegar lá, você com certeza dirá: “ATÉ AQUI NOS AJUDOU O SENHOR.”

sábado, 15 de outubro de 2011

Teimosia e esperança


Reflexão de: Pr. Ricardo Gondim

A humanidade é constante vai-e-vem. Avanços e retrocessos fazem a história alternar entre tragédia e farsa. Enquanto erradicamos a poliomielite, cometemos atrocidades. Revolucionamos as comunicações, mas permanecemos culpados dos mais horrorosos crimes.

No século XX, duas guerras mundiais se somaram a genocídios e extermínios étnicos para alterar, definitivamente, filosofia e teologia. Positivismo virou ingenuidade – quem ainda acredita no mito do progresso?

Em algum lugar, no Pentágono, numa cova rasa do Camboja, num escombro de Ruanda, jazem os ossos do “bom selvagem” de Jean-Jacques Rousseau. De Camus a Martin Luther King se discorreu sobre o “mal profundo” que aleija a humanidade. Ele existe. Entre luzes e sombras, a história se alonga, malévola, com miséria, aniquilamento de culturas, e muita, muita, dor.

Antigas formulações sobre Deus, desapareceram. Hemingway colocou na boca de Robert Jordan, personagem de “Por quem os sinos dobram”, o porquê de seu ateísmo. Para o autor, que testemunhara os horrores da Guerra Civil da Espanha, Deus não existe: “se existisse, Ele não teria permitido que eu visse o que vi com estes meus olhos”.

Por outro lado, escancarados os campos de concentração nazista, ficou claro que monstros existem. E como se multiplicam! Elie Wiesel narrou o dia em que assistiu ao enforcamento de um menino no pátio do campo onde estava preso. Perfilado, viu a criança agonizar, pendurada por minutos que pareciam uma eternidade. Ele lembra que o menino tinha “os olhos de um anjo feliz”. Na fila, Wiesel ouviu alguém perguntar: “Onde está Deus? Onde ele está? Onde está Deus, então?”. Uma voz respondeu em seu próprio coração: “Onde ele está? Ei-lo – está aqui, pendurado nesta forca”. Deus estava morto e o facínora, vivo.

Nunca testemunhei tantos horrores. Mas o pouco que vi bastou para eu refazer conceitos. Revisei o que entendia por Deus. Remexi na compreensão da vida. Distingui esperança de ilusão, ideal de compromisso, ingenuidade de realismo e comecei o árduo processo de reconstruir-me sem o imobilismo do pessimismo e sem a superficialidade do otimismo.

Depois de várias reformas, continuo a acreditar na possibilidade da vida, no potencial humano e no aparecimento de artesãos da história. Mesmo quando o encarceramento da bondade parece inexorável, vejo a bondade humana como a erva que rompe o cimento. Sob camadas de iniquidade, a virtude consegue vingar. Vinho bom pode vir do lagar onde se esmagam as uvas da ira. Creio no bem que ressurge, teimoso, como força existencial. Vivo com a esperança, sei que ventos imprevisíveis reacendem o pavio que fumega.

Vinicius de Moraes, logo após a II Guerra Mundial, em 1946, disse que “o pranto que choramos juntos há de ser água para lavar dos corações o ódio e das inteligências o mal entendido”. Sim, a humanidade é viável – caso contrário já estaria sepultada com os dinossauros – mesmo em meio a tanta ferocidade.

A maldade, mesmo universal, mesmo arraigada, não conseguiu asfixiar o bem. Os patifes têm maior visibilidade, os canalhas amedrontam, sórdidos intimidam, contudo, “onde abundou o pecado, superabundou a graça”. Por mais que o ímpio resfolegue ódio e o tirano oprima, a morte os alcançará. Eles passarão e o lento fluir da história continuará. Basta um fiapo de luz para que se desperte fome e sede de justiça em alguém. De onde menos se espera nascerão vigorosos esforços de paz.

Os Judas, os Brutus, os Pinochets, os Husseins, os Bushes, sumirão pelo esgoto da irrelevância. No fim, quando o Diretor da peça entrar no palco e avisar que o espetáculo acabou, o malvado será apenas uma nódoa. Ele próprio se condenará como personagem da Divina Comédia. E deixará, como único legado, a possibilidade de gerar indignação nos que acreditam em outro mundo possível.

Mesmo na sordidez contemporânea, o justo acena com a aurora de uma Nova Cidade; aguarda, como sentinela, a luz da aurora virar dia perfeito. O profeta do desespero tenta, mas homens e mulheres de bem resistem. É necessário que lampejos de esperança brotem nos atos simples de bordadeiras, poetisas, teólogas, operários, jornalistas, lavradores.

O milênio começou com poucas opções. Carpideiras choram no velório dos ideais – foram contratadas para despistar a festa do Grande Capital. Na ressaca do baile progressista, alguns não acreditam que sobará ânimo para o enfrentamento do desastre sócio-ambiental. Entretanto, a Imago Dei – imagem de Deus – nos olhos das crianças convida a humanidade a não entregar os pontos.

A doença que nos aflige não é para a morte. Ainda dá para virar o jogo. Enquanto pequeninos mantiverem louvor à vida e homens e mulheres não se ajoelharem no altar do cinismo, a promessa continua de pé: “Os mansos herdarão a terra”.